terça-feira, 16 de agosto de 2011

Ética Cristã e Desenvolvimento Sustentável

Ética Cristã e Desenvolvimento Sustentável[1]
                                                                    José Normando Gonçalves Meira[2]
O conceito de “desenvolvimento sustentável” é relativamente novo. Surgiu a partir das reflexões impostas pelas evidências de destruição das condições de vida no planeta em conseqüência de uma visão reducionista que privilegia o lucro financeiro, a curto prazo e para um grupo privilegiado, não levando em consideração a qualidade de vida da população em geral, especialmente das gerações futuras. Embora tal conceito tenha se ampliado no decorrer das décadas, pode ser entendido, de forma simples como  “o desenvolvimento que procura satisfazer as necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazerem as suas próprias necessidades. Significa possibilitar que as pessoas, agora e no futuro, atinjam um nível satisfatório de desenvolvimento social e econômico e de realização humana e cultural, fazendo, ao mesmo tempo, um uso razoável dos recursos da terra e preservando as espécies e os habitats naturais”   (Relatório Brundtland, elaborado em 1987 pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento) . A proposta é a busca de um “ ponto de equilíbrio entre o crescimento econômico, equidade social e a proteção do ambiente”.  Como as crenças religiosas interferem diretamente no comportamento dos indivíduos, como discutiu exaustivamente o sociólogo alemão Max Weber, é importante verificar as implicações do pensamento cristão para essa temática de extrema relevância. É inegável a influência histórica do cristianismo na construção sócio-política do mundo ocidental e, especificamente, do Brasil. Tratando-se de um tema tão atual, encontrariam os cristãos base bíblica para a sua discussão? Considerando a amplitude do próprio termo “cristianismo” que abriga diversas vertentes, com diferentes dogmas, atenho-me, nesta abordagem, ao cristianismo da vertente  herdeira da Reforma Protestante do Século XVI, especificamente a calvinista, que tem a Bíblia, como única regra de fé e de prática e que, segundo os seus documentos oficiais, procuram pautar as suas ações no que o seu livro sagrado ensina. Como esses cristãos lidam com o problema do desenvolvimento sustentável? Como a sua visão de mundo interfere nessa questão? Verifiquemos princípios bíblicos que nos fornecem elementos para esta compreensão, por ser o texto bíblico a fonte primária para a elaboração da ética cristã reformada. É preciso lembrar que o tema “desenvolvimento sustentável” é amplo e diversas as propostas dele decorrentes. Trato aqui apenas dos seus princípios gerais.
Logo nos primeiros capítulos, do primeiro livro da Bíblia, o cristianismo reformado aponta um princípio que dá sentido à proposta do desenvolvimento sustentável: Deus criou o homem à sua imagem e à sua semelhança e o deu domínio sobre toda a sua criação. Animais de todas as espécies, peixes, árvores com seus frutos, ervas, todos os elementos, estariam sob o domínio do homem e lhe serviriam como mantimento (Gênesis capítulo 1, versículos 26 a 31). O homem, sendo uma criatura especial de Deus, sua imagem e semelhança, recebeu o privilégio de administrar a natureza, obra da criação divina. Uma inferência natural aqui é a de que todo administrador, mordomo, tem o dever de prestar contas dos seus atos administrativos àquele que lhe delegou tal função. Eis aqui a razão pela qual o cristão, desta vertente, entende que todas as suas ações sobre a natureza devem seguir os padrões divinos, visando a sua glória. Afinal “Ao Senhor pertence a terra e tudo o que nela se contém. O mundo e os que nele habitam” (Salmo 24, versículo 1). A administração responsável dos recursos naturais impõe-se deste ponto de vista. O homem foi colocado no jardim “para o cultivar e guardar” (Gênesis capítulo 2, versículo 15). Levando a sério esse princípio, o homem não pode ser negligente para com o potencial da natureza que recebe para “cultivar”. É preciso explorá-la, desenvolvê-la, “produzir cultura”, desenvolver os seus talentos. A idéia de progresso é, portanto, compatível com a fé bíblica. Isto nas diversas esferas da ação humana. O comodismo, a preguiça, a inoperância, são pecaminosas por representarem desprezo para com a vocação divina de “dominar” e “cultivar” a natureza.  Por outro lado, o homem, esse administrador autorizado e comissionado por Deus, deve realizar o seu trabalho consciente da responsabilidade de “guardar” o que recebeu em condições de atender às necessidades de outros que virão. Esses recursos não pertencem a quem os explora. São de Deus para o bem estar das diversas gerações. Esse é o ideal divino para a ação humana sobre o mundo que lhe foi confiado.
            O protestantismo reformado, entende que a entrada do pecado no mundo, a “queda do homem”, é o fator que explica o distanciamento do comportamento humano dos ideais estabelecidos por Deus. O homem tornou-se egoísta, rebelde contra o Criador e, por isso, age como se fosse o dono do mundo, visando os seus próprios interesses. Até a visão dos seus interesses está prejudicada, pois considera apenas os resultados imediatos e acaba, de forma contraditória, prejudicando a si mesmo e aos outros, da sua geração e das gerações futuras. Se a “queda” é responsável por essa inversão de valores na administração dos recursos naturais dados por Deus ao homem para a sua sobrevivência feliz, a “redenção”, operada pelo Evangelho, motiva os cristãos, dedicados a Deus e à sua vontade, a promoverem o retorno aos ideais estabelecidos pelo Criador em sua palavra. O cristão deve ser engajado, portanto, dentre outras causas, à causa da preservação ambiental por meio de uma “reforma” da compreensão do que seja desenvolvimento e progresso. A idéia de “reforma” pressupõe que o desejo de explorar a natureza, transformando-a de forma a gerar desenvolvimento, melhores condições de vida, é algo bom, dado por Deus ao homem, mordomo dos recursos naturais. Refere-se  ao “mandato cultural”, o de trabalhar, transformar conscientemente a natureza para o seu próprio bem, para o bem do próximo e para a glória do Criador.  É preciso, entretanto, tendo em vista o pecado, corrigir essa visão deturpada da realidade, egoísta, destruidora, que promove, de forma contraditória, a destruição da vida. O protestantismo reformado segue aqui, a proposta agostiniana, também fundamentada na Bíblia, de se enfrentar a cidade dos homens, regida pelo egoísmo, pela violência nas suas diversas modalidades, pela corrupção, com os princípios transformadores da “cidade de Deus”. Esse é o dever cristão, mesmo sabendo que, só no contexto celestial tal transformação ocorrerá na sua plenitude, como afirma o apóstolo Pedro: “Nós, porém, aguardamos novos céus e nova terra, nos quais habita justiça” (Segunda Carta de Pedro, capítulo 3, versículo 13). Enquanto isso, como “sal da terra” e “luz do mundo” (Mateus capítulo 5, versículos 13 a 16), os cristãos, coerentes com a fé que professam, por meio da palavra profética, serão sempre resistentes aos diversos tipos de destruição da vida, sob pretexto de desenvolvimento econômico: contaminação das águas, destruição das matas nativas, dos animais, transformação de ervas, cana e cereais, criados para, de algum modo promover a vida, em entorpecentes que destroem a consciência e promovem diversos tipos de violências social: doméstica, do trânsito, dentre tantas outras, destruindo a saúde que também é dádiva de Deus. Esses fundamentos teológicos, doutrinários, de fé, motivam o posicionamento do indivíduo nos diversos contextos e experiências. Isso envolve também, é óbvio, o conflito pessoal em busca da coerência. Como afirma, em outro contexto, o educador Paulo Freire: “As qualidades ou virtudes são construídas por nós no esforço que nos impomos para diminuir a distância entre o que dizemos e o que fazemos. Este esforço, o de diminuir a distância entre o discurso e a prática, é já uma dessas virtudes indispensáveis – a coerência”.
Essa perspectiva teológica contribui, portanto, para o atualíssimo debate referente à responsabilidade ambiental, por meio da educação realizada pela igreja e suas instituições, influenciando em ações de outros setores da sociedade, inclusive do Estado, que por meio de leis bem aplicadas, disciplinem, de forma efetiva, a utilização dos recursos naturais de forma sustentável e da política educacional formadora de mentalidades que considerem as dimensões do problema.


[1] Artigo publicado
[2] Bacharel em Teologia pelo Seminário Presbiteriano de Belo Horizonte, Licenciado em Pedagogia pela UNIMONTES. Mestre em História pela UFMG, Doutor em História da Educação pela PUC-SP. Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil e Professor da UNIMONTES e da FUNORTE

3 comentários:

Lílian Mendonça disse...

Que reflexão maravilhosa, Normando!Vc foi muito feliz com a escolha do tema. Sinto muito falta de uma abordagem teológica inteligente sobre esse assunto e você conseguiu fazer isso.Parabéns!Precisamos falar muito sobre isso porque a Igreja Protestante ainda é capenga no entendimento e envolvimento sócio-ambiental.

Hugo Meira disse...

Muito bom o blog.O layout é bem limpo e favorece muito a leitura.

Textos bem elaborados e profundosm, não é pra qualquer pessoa...

Faço uma sugestão para o público mais leigo:

1) Mais informalismo e linguagem mais dirigida e chamativa ao leitor.

2) Os textos devem ser mais curtos, com paragráfos e períodos menores.

Se seu público for do meio acadêmico ou de estudos religiosos desconsidere as sugestões.

Um grande abraço e sucesso!

ValdecirJordao disse...

Meu grande e Nobre Colega, Rev. Normando

Confesso que não tinha lido nada acerca deste assunto. Maravilhoso sua abordagem! Precisamos pensar mais sobre esse assunto...

Um grande abraço,

Pr. Valdecir V. Jordão

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